MALA #275
Sentadinho e pulando no cinema
IMAGEM DA SEMANA
Stevie Nicks e George Harrison fazendo música juntos em 1978, no Havaí. Durante uma viagem à casa que ele mantinha em Maui, os dois passaram dias compondo e cantando juntos. Nicks teria ajudado a moldar a letra e a melodia de “Here Comes the Moon” de Harrison (a sequência espiritual de “Here Comes the Sun” dos Beatles) e também contribuiu com vocais de apoio na faixa “Love Comes to Everyone” de seu álbum homônimo de 1979. Mas eu não sei quem é o loiro olhando para a câmera.
C6 FEST: ENTRE TAÇAS DE VINHO, CAPPUCCINOS E ROBERT PLANT
Quantas vezes você, caro leitor, cara leitora, já ouviu a frase “ir a um show é uma das melhores coisas que você pode fazer na vida”?
E é mesmo. Mas pode não ser. Porque, como quase tudo na vida, essa frase não é matemática, como se fosse uma equação binária.
Já faz algum tempo que eu decidi não ir mais a festivais gigantescos. Lollapalooza? Passo longe. Rock in Rio? Precisaria ter umas duas ou três atrações daquelas, escolhidas a dedo, para me levar até a Cidade do Rock. Todo Mundo no Rio, em Copacabana? Só se for “todos menos eu”.
Assistir a um show em um megaevento desses nunca é uma experiência plena e, no final das contas, quem realmente gosta da música que está sendo executada ali acaba vendo e ouvindo melhor pela TV. E tome transmissões de festivais pelo YouTube ou por plataformas de streaming para saciar os desejos de nós, velhinhos do sofá.
Mas existem exceções.
O C6 Fest é uma delas. Festival de porte médio, acontece em um lugar mais do que charmoso (o Parque Ibirapuera, em São Paulo), com atrações escolhidas a dedo e que não atraem 50, 60 ou 100 mil pessoas. A isso se dá o nome de curadoria, e, no caso do C6, é uma das melhores que podemos ter nos dias de hoje neste país, ainda que uma ou outra atração não te agrade. Mas faz parte do jogo.
Das quatro edições do evento, fui a três, e é nítido como ele tem evoluído na disposição dos palcos, na diversidade do que encontramos por lá e, principalmente, no conforto oferecido aos frequentadores. Eu brinco que, mais do que isso, só se os produtores colocassem poltronas acolchoadas espalhadas pelo parque.
Tudo bem que na edição deste ano choveu e um pouco do conforto ficou prejudicado. Mas eles foram perspicazes em cobrir o solo do palco principal — a Arena Heineken — e, cá entre nós, apesar dos pesares, eu consegui a proeza de não tirar a capa de chuva da mochila em nenhum momento. E aí, entre taças de vinho, cappuccinos (em que momento me tornei a pessoa que pede um cappuccino em um festival de música?) e muitos encontros com os amigos, eu vi alguns shows.
Fui completamente descompromissado para o festival este ano, sem uma atração que eu fizesse questão absoluta de assistir, como o Wilco no ano passado. Isso me permitiu uma maior movimentação pelo evento e curtir mais a experiência em si do que os shows. Não que eles não tivessem me agradado. A sequência Horsegirl / Baxter Dury / Wolf Alice / Matt Berninger na Tenda MetLife, no sábado, me deixou com um sorriso na cara. Quatro bons shows, nada imperdível. Baxter Dury, no entanto, me fez pensar que as décadas de sons altos em meus tímpanos estão cobrando um preço muito alto: não consegui ficar na tenda ouvindo os graves da “buateira” promovida por ele, e fui obrigado a assistir da área externa.
Já o The xx, que encerrou a Arena Heineken no sábado, foi aquilo que se esperava e me remeteu a uma palavrinha que eu sempre uso para descrever apresentações desse tipo: classudo. Sem maiores novidades no setlist, a não ser um trecho em que Jamie xx deixou sua porção DJ falar mais alto, a banda entregou o que o público presente queria. Inesquecível? Longe disso, mas nem todos os shows que assistimos precisam ser os melhores da história, não é mesmo?
(Aliás, essa sensação — de que precisamos assistir aos melhores shows de todos os tempos — acaba atrapalhando boa parte da experiência. Por que não é possível simplesmente assistir a um bom show? Parece que tudo hoje precisa ser o melhor ou o pior da história.)
E aí veio o domingo. E dois clichês reinaram na minha cabeça: save the best for last e é aí que a gente separa os homens dos meninos.
O primeiro show que assisti foi Os Paralamas do Sucesso feat. Nação Zumbi. Tinha tudo para dar certo — e acho até que em uma outra situação pode funcionar —, mas o som baixo da Arena Heineken pôs tudo a perder. Uma pena. Mesma coisa para o Beirut, que veio na sequência no mesmo local. Som baixo, sem pressão. Não me entenda mal: gosto da banda, mas ali eles estavam completamente deslocados e não consegui assistir até o final. Fui procurar algo para comer e esperar a atração principal da noite.
Desde que entrei no parque no domingo, o que eu mais via eram pessoas com camisetas do Led Zeppelin. Apesar de o trabalho atual de Robert Plant não ter muito a ver com a banda que o colocou no mapa da música, é óbvio que não dá para deixar passar isso batido, e bastava conferir os setlists de outros shows da turnê para perceber que, sim, eles tocam várias músicas do Zep. Mas seria um exagero reduzir o show de Plant e da sensacional Saving Grace a “uns covers de Led Zeppelin e outras coisas”. É muito mais do que isso. Aliás, em um determinado momento, eu até pedi mentalmente para que ele não tocasse mais nada do Zeppelin e se concentrasse em outras recriações, como a espetacular versão de “For the Turnstiles”, de Neil Young — o ponto alto do show, na minha opinião. A potência dos arranjos, a maestria da voz de Plant (aliada à da também sensacional cantora Suzi Dian), a escolha do repertório e o som espetacular fizeram com que esse show parecesse coisa de profissional na comparação com todos os outros do festival até então. Lembram do segundo ditado ali em cima? Pois é.
Mas calma que ainda tem mais.
O C6 Lab foi uma nova proposta, criada pelo festival, para levar ao palco do Auditório Ibirapuera algumas novas iniciativas da música, em performances intimistas para pouco mais de 800 pessoas. E o artista escolhido para encerrar o festival, no domingo, depois das 23 horas, foi ninguém menos que Cameron Winter, o cantor e principal compositor de uma das bandas indie do momento, o Geese. Aqui, Cameron compareceu em sua versão solo, cujo disco Heavy Metal foi um dos meus prediletos de 2024.
Ali, no palco do auditório, Winter mostrou por que, aos 24 anos, é considerado um prodígio. De forma completamente nua, ao piano, fez uma viagem e tanto por um universo que passa por seu amadurecimento musical e pessoal, me levando inclusive a driblar o cansaço que se abatia sobre meu corpo. Confesso que dei umas duas pescadas durante o show. Ainda assim, foi um dos grandes momentos do festival.
No dia seguinte, já recuperado, voltei à pergunta que abriu este texto e tentei encontrar uma resposta satisfatória. Cheguei à conclusão de que ela não existe de forma única. A maturidade (velhice?) faz com que apuremos nossos gostos e necessidades de conforto, mas ainda conservemos o espírito jovem de estar ali diante de artistas que se apresentam ao vivo para nós. No fim das contas, a curadoria do C6 Fest, que nos oferece uma viagem pelo passado, presente e futuro da música, vai ao encontro do meu espírito de também querer que o Rodrigo James do passado encontre o do presente e o do futuro em algum lugar na plateia de alguns bons shows.
Até o ano que vem, C6 Fest!
OS 10 SHOWS QUE ASSISTI NO C6 FEST 2026, RANKEADOS:
Robert Plant With Saving Grace
Cameron Winter
The XX
Matt Berninger
Wolf Alice
Horsegirl
Paralamas do Sucesso e Nação Zumbi
Beirut
Baxter Dury
Mano Brown convida Rincon Sapiência (só vi duas músicas. Por isso ele comparece aqui nesta posição)
ALGUNS VIDEOS:
Cameron Winter
Robert Plant with Saving Grace
The xx
Wolf Alice
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PARA ASSISTIR NO CINEMA
Obsessão
Direção: Curry Barker
Elenco: Inde Navarrette, Michael Johnston, Cooper Tomlinson, Megan Lawless
Mais do que falar sobre o filme do momento, “Obsessão”, resolvi aproveitar o gancho e falar sobre o atual status dos filmes de terror, que dominaram as telonas, a partir da minha própria experiência indo assistir este filme.
Dê o play:
ONDE: Nos cinemas de todo o Brasil
O podcast “Meninos, Eu Vi” está disponível no Apple Podcasts, Amazon Music, Deezer, Castbox e Youtube, além do Spotify. Clique aqui para obter os outros links.
A SEMANA DA CULTURA POP
Reta final para “Disclosure Day", de Steven Spielberg, que estréia em junho. Saiu o trailer final:
“Teenage Sex and Death at Camp Miasma” estreou neste mês em Cannes, vai ter sua estréia nos cinemas via MUBI em agosto e comparece aqui com um trailer mais do que interessante:
“Fatherland”, de Pawel Pawlikovsky, também foi exibido em Cannes na Mostra Competitiva, e para muita gente, deveria ter ganhado a Palma. Com Sandra Huller no elenco:
Aqui o trailer de “Primetime”, com Robert Pattinson, que estréia no segundo semestre:
O Tribeca Festival 2026 vai exibir “Dreams of Violets”, primeiro longa-metragem live-action totalmente gerado por IA aceito por um grande festival, produzido pelo estúdio Fountain 0 e centrado na resistência civil iraniana. O trailer está aqui:
“In the Hand of Dante”, novo filme de Julian Schnabel, com Oscar Isaac, Gal Gadot, Gerard Butler, John Malkovich, Louis Cancelmi, Sabrina Impacciatore, Franco Nero, Benjamin Clementine, Paolo Bonacelli, Martin Scorsese, Al Pacino, e Jason Momoa, estréia na Netflix em junho:
Aqui o trailer da segunda temporada da série de animação “X-Men ‘97”, que estréia em julho no Disney+:
Aqui, Colin Farrell chega para a segunda temporada de “Sugar”, e eu não faço a menor ideia de como eles vão continuar com essa história:
O trailer do doc sobre o Earth Wind & Fire, dirigido pelo Questlove, me deixou com água na boa. Estréia já agora em junho na HBO:
Finalmente, o trailer do filme “A Viagem”, baseado na novela de mesmo nome, produzido pela Globo:
O Festival de Cannes 2026 acabou no último sábado e teve “Fjord” de Cristian Mungiu, como o grande vencedor da Palma de Ouro. Muita gente, como o Peter Bradshaw, do The Guardian, não gostou nadinha. Mas além da lista dos vencedores, aqui tem uma análise interessante por um lado e meio protecionista por outro, de como Cannes este ano esteve esvaziada de glamour porque não teve astros hollywoodianos ou grande estréias na Croisette.
Um estudo apontou que, nos últimos anos, foi mais comum ver protagonistas homens chamados “Chris” ou até animais falantes nos cinemas do que mulheres acima dos 60 anos em papéis principais. Se é triste ler esta notícia aqui, imaginem detalhar e vê-la completa.
Stephen Colbert apresentou um programa de TV comunitária chamado Only in Monroe, em Michigan, um dia depois do seu episódio final no “The Late Show”, numa espécie de “volta às origens” na TV de acesso público, com convidados de alto perfil como Jack White e Jeff Daniels. A Paramount não gostou nadinha disso e começou a notificar o Youtube depois que fãs começaram a subir o especial inteiro em canais não oficiais.
O fenômeno “Yellowstone” e seu yellowstoneverso não para. Agora foi a série spinoff “Dutton Ranch”, que emplacou a maior estréia de uma série na história do Paramount+. Quantos de vocês acompanham o yellowstoneverso?
Agora sim, saiu um ranking definitivo com as séries mais assistidas da temporada 2025-2026 em todas as plataformas, incluindo aí tv aberta e cabo. Você consegue adivinhar qual foi a número 1?
Uma notícia mais do que inusitada: Armando Iannucci, criador de séries como “Veep”, será o co-roterista do próximo filme da série “Paddington”.
Acabei de voltar do C6 Fest com mais fome de festivais pequenos e legais. O Balaclava Fest é um deles e eu estou considerando ir este ano, em setembr. O lineup já saiu e inclui bar italia, Diiv, Dry Cleaning e mais um monte de coisas legais.
Na semana passada não teve MALA propriamente dita, então eu não consegui comentar o fato de que Drake lançou três álbuns no mesmo dia. Foi bom porque nesta semana ele me deu a chance de voltar ao assunto por conta de um récorde de Michael Jackson que ele bateu. Até eu pedi a IA para me dar mais infos dos três e ela fez uma tabela (!). Toma aí pra você saber o que é o que:
Anitta: cantora, empresária e agora roteirista. E atriz de cinema.
O BTS foi o grande vencedor do American Music Awards, que rolou na última segunda-feira, faturando o principal prêmio da noite. Confira aqui a lista completa dos vencedores.
Paul McCartney revelou que está trabalhando em um dueto póstumo com Prince, remixando a cover do artista para "The Long and Winding Road" dos Beatles. A gravação original veio de apresentações ao vivo durante a residência de Prince em Las Vegas em 2007, e foi enviada a McCartney por um fotógrafo pessoal de Prince alguns anos atrás.
Henry Rollins e Ian MacKaye ajudaram a tirar do limbo “Gravest Gravy”, um álbum produzido por Alex Chilton com gravações de 1977 dos The Cramps que nunca havia sido lançado e agora chega em 21 de agosto em vinil, CD e digital.
ARTISTAS QUE ANUNCIARAM TURNÊS/NOVOS SHOWS ESTA SEMANA: Mariah Carey (No Brasil e perto do Natal!), Kehlani, Sepultura (o último show), The Chicks, The Tallest Man on Earth, Alter Bridge, Gracie Abrams,
OBITUÁRIO:
Sonny Rollins, o “colosso do saxofone”, aos 95.
MERCADO, ETC
A ElevenLabs fechou um acordo amplo com a Stan Lee Universe para licenciar a voz e a imagem do Stan Lee em sua plataforma de IA, permitindo usos tanto comerciais (para empresas) quanto voltados a fãs em produtos específicos.
Netflix e Spotify fecharam um acordo multianual, estimado em cerca de 100 milhões de dólares, para ter a versão em vídeo do podcast “On Purpose”, de Jay Shetty, de forma exclusiva nas duas plataformas.
A IMAX está à venda. Mas por que?
ESTRÉIAS DA SEMANA EM STREAMING E CINEMA
RICK AND MORTY - última temporada - estreou esta semana no HBO Max:
SPIDER NOIR - estreou esta semana no Prime Video:
MANUAL DE ASSASSINATO PARA BOAS GAROTAS - 2a temporada - estreou esta semana na Netflix:
AS QUATRO ESTAÇÕES DO ANO - 2a temporada - estreou esta semana na Netflix:
BRASIL 70: A SAGA DO TRI - Estréia hoje na Netflix:
CIDADE DAS ESTRELAS - estreou esta semana na Apple TV:
E mais…
BUGONIA - Chegou esta semana ao Prime Video
VELHOS BANDIDOS - Chegou esta semana ao Prime Video
E nos cinemas….
DICAS MUSICAIS
Que o Radiohead é uma força criativa na música, ninguém tem dúvida. Não só os discos da banda como os trabalhos solo de Thom Yorke e Jonny Greenwood tem chamado a atenção de mídia e público, dentro das devidas gavetas. Mas e os demais? E Ed O’Brien?
Pois saibam que este “Blue Morpho”, segundo trabalho solo do guitarrista da banda, está sendo chamado por muitos como “o trabalho mais Radiohead de um membro da banda”. O disco foi gravado ao longo de cinco anos, durante um dos períodos mais sombrios de sua vida, pós pandemia, quando o isolamento, e uma depressão profunda mal o deixou conseguindo funcionar.
Durante esse período, sua mulher, Suzi, o encorajou a sentar nesses sentimentos, lembrando-o de que o único caminho era atravessar. O’Brien começava os dias com as práticas de respiração e banhos frios, depois se trancava em seu pequeno estúdio londrino com o violão e tocava até a mente começar a se desfiar.
Não havia direções nem preconceitos. O’Brien usava o instrumento para navegar cinquenta anos de trauma emocional que finalmente haviam vindo à tona. Ao longo dos quatro anos seguintes, esses fragmentos evoluíram para as sete faixas do álbum.
A produção ficou a cargo de Paul Epworth e Riley MacIntyre. Epworth, por exemplo, entrou de uma forma bastante aleatória: os filhos dos dois estudavam na mesma escola. Musicalmente, o álbum transita por psych-folk hipnótico, guitarras radiantes e trip-hop, ligados por uma quietude alucinante.
Ah sim, o título faz referência a uma espécie de borboleta que O'Brien avistou durante o período em que morou no Brasil, no início dos anos 2010. A blue morpho é uma borboleta nativa do Brasil com um ciclo de vida tão dramático que passou a representar transformação, recomeço e renovação. A última música, inclusive, tem um título em português e dá o tom deste fim/recomeço: “Obrigado”.
Ouça já!
E mais…..
Boa ouvir o Anthrax tocando sua música nova - “It's for the Kids” - ao vivo pela primeira vez?
Aumente o som porque tem uma nova do A Perfect Circle:
Uma nova do The Tallest Man on Earth:
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