MALA #282
Oêoê! Êoê!
IMAGEM DA SEMANA
A Inglaterra foi eliminada na semifinal pela Argentina, mas eu não poderia deixar de postar aqui esta maravilhosa imagem que muitos detratores dirão ser gerada por IA.
Eu digo que é pura poesia.
FANDOM
Ler esta palavrinha deveria ser algo positivo. Afinal, idolatrar algo ou alguém deveria significar algo bom. É bom ter ídolos, gostar de algo incondicionalmente, sonhar com momentos relacionados a isso e se espelhar neles para dar passos que nos tragam algo positivo. Mas não tem sido assim.
Talvez não haja assunto mais discutido hoje em dia. Cerca de 90% do que leio ou vejo são temas relacionados, de alguma forma, às tais idolatrias, que ganharam esta alcunha — fandoms — e uma forte conotação negativa à medida que as discussões se transformaram em brigas.
Não existe campo do conhecimento onde o fandom não tenha atuado. Do futebol à filosofia, da música ao cinema, da literatura às artes plásticas, da cultura do café ao gosto por chocolates. Existem sempre os defensores incondicionais e os detratores prontos para se degladiarem a respeito. Tenho certeza de que, nesta Copa do Mundo, você passou horas discutindo com seus convivas se Messi é melhor que Pelé, se Neymar é o maior jogador brasileiro dos últimos tempos, se a seleção da França é a melhor da história ou se o futebol da Espanha é mais ou menos eficiente do que o da Argentina.
E, desde ontem, um outro fandom se degladia como se estivesse em uma verdadeira Batalha de Troia. O diretor Christopher Nolan é talvez o mais discutido dos nossos tempos, e não há como passar incólume às discussões. Na cinefilia moderna, ou você ama, ou você odeia os filmes de Nolan. No início do episódio desta semana do meu podcast “Meninos, Eu Vi” sobre seu mais novo filme, “A Odisseia”, eu menciono isso, mas não aprofundo. Sobre a obra em si, convido você a dar o play no episódio aí embaixo e depois me contar o que achou.
Mas, sobre o fandom, vale a pena falarmos um pouco mais por aqui. Minha teoria é que Nolan se transformou nesse “ame ou odeie” a partir de sua trilogia Batman. Os três filmes que ele dirigiu entre 2005 e 2012 trouxeram uma visão mais realista para o personagem (um dos mais queridos dos fãs de quadrinhos, se não o mais), característica marcante de sua obra. Entretanto, os muitos detratores dizem que ele não entendeu o herói e o desvirtuou.
Na semana passada, ao falar sobre a fadiga dos filmes de heróis, tangenciei um pouco este tópico dos fandoms, porque eles estão intimamente ligados. Os fãs de super-heróis são donos dos fandoms mais ferrenhos da atualidade e simplesmente não aceitam que suas visões de mundo sejam modificadas. Acontece que, para o desespero deles, não existe uma única visão acerca de uma obra de arte. Múltiplas interpretações são sempre possíveis. Nolan sabe disso, e sua Odisseia, assim como quase todos os seus filmes anteriores, é a sua visão particular daquele universo. Talvez seja exatamente isso o que se convencionou chamar de arte….
Mas não adianta. O fandom detrator de Nolan não vai suportar se “A Odisseia” for bem nas bilheterias e se os críticos rasgarem elogios (no momento em que escrevo isto, o filme ostenta 96% de aprovação no Rotten Tomatoes). E não vão aceitar porque a visão do diretor não é a que eles escolheram como a única verdadeira. Quanta dificuldade em aceitar que o mundo é multifacetado! O fandom não enxerga além do próprio nariz, mas tem toda a paciência do mundo para vociferar sua fúria nos canais apropriados para isso (as redes sociais, basicamente), normalmente sem argumentos que vão além do básico. Agem como se fossem Zeus jogando sua ira sobre os gregos, ou Poseidon revoltando os mares para impedir que Odisseu retorne a Ítaca.
Não sei qual é a sua formação, caro(a) leitor(a), mas a minha, na área de humanas, me ensinou a observar, ouvir, aprender e mudar de opinião sempre que necessário. O fandom nunca muda de opinião, nem mesmo quando o objeto de sua idolatria passa a pensar diferente. “É um traidor!”, dirão os mais incautos, em vez de tentarem compreender os motivos da mudança. Por isso mesmo, o próprio Christopher Nolan não deu a menor bola para as críticas feitas antes mesmo da estreia do filme. “São irrelevantes”, disse ele. E são mesmo. São os cegos decidindo que preferem continuar sem enxergar.
Assim, perde-se o espaço para o debate, para a dualidade, para a dicotomia e para a diversidade de opiniões. Ao pertencermos a fandoms, estamos condenados a olhar apenas para as nossas próprias certezas, sem enxergar um palmo adiante. Uma pena que o nosso mundo tenha se transformado nisso. É tão bom olhar para a frente e enxergar algo diferente…
Por isso mesmo, reitero aqui a brincadeira que ouvi não sei onde, mas concordo: o fã tem que acabar.
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DICA DE FILME
A Odisséia
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Lupita Nyong’o, Zendaya, Robert Pattinson
Um dos filmes mais esperados de 2026 chegou aos cinemas. “A Odisséia”, de Christopher Nolan promete ser mais um daqueles que divide as opiniões. Afinal, todo filme de Nolan divide opiniões.
Mas e aí? Presta?
ONDE ASSISTIR: Nos cinemas de todo o Brasil
O podcast “Meninos, Eu Vi” está disponível no Apple Podcasts, Amazon Music, Deezer, Castbox e Youtube, além do Spotify. Clique aqui para obter os outros links.
A SEMANA DA CULTURA POP
Finalmente o trailer propriamente dito (não aquela enganação de algumas semanas atrás) de “Digger”, com Tom Cruise encabeçando o elenco do novo filme de Alejandro G. Iñarritú:
Aqui tem o onipresente Pedro Pascal em “Behemoth!”, de Tony Gilroy. Olivia Wilde e Will Arnett também estão no elenco:
“The Shards" é uma nova série de Ryan Murphy baseada em um livro de Bret Easton Ellis. Estréia em agosto:
“I Play Rocky” conta a história dele, Sylvester Stallone, na época em que concebeu o filme que o tornaria famoso. Estréia nos cinemas em novembro. A tempo do Oscar, talvez?
Matt Reeves adiou novamente “Batman Parte II”, que agora chega aos cinemas em 18 de fevereiro de 2028. Mas ele aproveitou para divulgar um teaser, que é uma espécie de teste de câmera de Robert Pattinson de volta ao papel:
The Uprising” é um thriller histórico em que Andrew Garfield interpreta o líder lendário de uma rebelião violenta contra a tirania do rei Ricardo II, na Inglaterra pós-Peste Negra, quando o monarca impõe impostos brutais para financiar a Guerra dos Cem Anos. Estréia em setembro:
Aparentemente o público não comprou a ideia de mais um live action da Disney. Desta vez foi “Moana” que ficou bem abaixo das expectativas em seu primeiro fim de semana nos cinemas.
Já “Toy Story 5” não só está indo bem como a franquia já movimentou mais de 50 bilhões de dólares, de acordo com estudo.
Aqui tem um texto sobre perdedores e vencedores nas bilheterias de 2026 até agora.
E lá vem mais um reboot de “A Hora do Pesadelo”.
O Besouro Azul estará no novo filme do Superman, “Man of Tomorrow”.
A prequel de “Invocação do Mal” já tem os atores que interpretarão Ed e Lorraine escolhidos.
A febre em torno de “A Odisséia” atingiu um nível sem precedentes, especialmente no que diz respeito às disputadas sessões no formato analógico IMAX 70mm. Tem cinéfilo cruzando os Estados Unidos para assistir a alguma sessão e uma em específico adiou os planos de uma gravidez para garantir que o nascimento do bebê não coincida com o fim de semana de estreia.
E se você não gostar dessa versão de “A Odisséia" não tem problema. Vem aí uma outra versão feita 100% com IA. Vai que…
“Superman” lidera as indicações ao 6o. Critics Choice Super Awards 2026, enquanto “Obsessão” e “A Hora do Mal” se sobressaem nas categorias de horror. “The Boys” domina entre as séries de super‑herói na TV. O Critics Choice Super Awards é um prêmio da Critics Choice Association voltado para filmes e séries de super‑herói, ficção científica/fantasia, horror e ação, segmentos geralmente pouco valorizados por premiações tradicionais.
A Netflix encomendou a produção de um reality de competição baseado no jogo de tabuleiro “Monopoly”, o nosso Banco Imobiliário. O prêmio será de 2 milhões de dólares.
A live que Madonna fez no TikTok no último dia 2 para promover seu “Confessions II” bateu o récorde de live solo na plataforma.
William Shatner, 95, vai se apresentar no Riot Fest 2026 em Chicago com uma banda de metal e aproveitar o show para divulgar seu primeiro álbum de heavy metal.
A residência de Jay-Z no Yankee Stadium terminou no último domingo com um show que teve apenas Beyoncé, Rihanna, Usher, Pharrell Williams e Teyana Taylor fazendo participações especiais. O show atrasou mais de duas horas para começar devido a falhas na segurança do evento e terminou às 3 da manhã.
Mick Jagger deu algumas boas entrevistas para divulgar “Foreign Tongues”, o novo disco dos Rolling Stones (mais sobre ele lá embaixo). Uma delas é esta aqui, no New York Times. E tem também esta abaixo, no podcast de Conan O’Brien:
Outro video delicioso que assisti esta semana foi a entrevista de Rick Beato com Billy Joel, falando sobre música, esmiuçando suas canções, seu método de composição e até mostrando coisas inacabadas:
OBITUÁRIO:
Sam Neill, ator irlandês de “Jurassic Park”, “Peaky Blinders” e tantas outras produções, aos 75 anos.
MERCADO, ETC
A Paramount Skydance está reagindo duramente ao processo movido por 12 procuradores-gerais democratas para barrar sua fusão com a Warner Bros. Discovery, chamando a ação de equivocada e prejudicial à concorrência contra gigantes do streaming como a Netflix.
Uma ótima análise sobre como a Netflix trocou, há bastante tempo, a estratégia de "boutique" (foco em prestígio e curadoria) por uma de "depósito" ou "atacado" (foco em volume e quantidade), um processo que alguns produtores e críticos apelidaram de a "Walmartização" ou "Costcoização" do streaming.
Por esta você não esperava: as vendas de CDs nos EUA cresceram 16% e chegaram a 16,3 milhões de unidades no primeiro semestre de 2026, enquanto o vinil cresceu apenas 2,4% no período.
Vale a pena assistir a este video que fala de uma parceria entre Fred Again e a Dropbox que pode ser um game changer no mercado de shows ao vivo porque envolve algo que incomoda a todos nós: o uso de celulares para gravar e fotografar tudo em um show.
ESTRÉIAS DA SEMANA EM STREAMING E CINEMA
PARCEIRAS NO CRIME - estreou esta semana no Prime Video:
DESCENDENTES: PAÍS DAS MARAVILHAS MALVADO - estreou esta semana no Disney+:
O FALCÃO DO GOLFE - estreou ontem na Netflix:
HEARTSTOPPER PARA SEMPRE - Estréia hoje na Netflix:
LUCKY - Estreou esta semana na Apple TV:
E mais…
UNDERTONE - Chega hoje ao HBO Max
E nos cinemas….
DICAS MUSICAIS
Em uma primeira ouvida, “Foreign Tongues”, o novo disco dos Rolling Stones, me soou como “mais do mesmo”. Umas duas músicas boas, outras ok e mais algumas apenas dignas.
Aí, fui ouvir de novo com um pensamento incrustado no meu cérebro: por que diabos eu estou cobrando algo genial dos Rolling Stones em 2026?
Talvez a maioria de vocês acabe dando o play neste disco com a esperança de encontrar um novo “Sticky Fingers” ou um “Exile on Main St.”. Sinto informar que esse disco que você espera não existe e nunca mais será feito. Até porque não é possível para os Rolling Stones e para praticamente todo mundo que faz música hoje ou sempre, superar esse sarrafo. Mas aí, quando você baixa a expectativa e presta atenção no que eles realmente entregaram, consegue chegar exatamente onde eles querem que você chegue: na diversão.
Os Rolling Stones, em 2026, querem que você se divirta ouvindo canções que, tenho certeza, eles se divertiram fazendo. Não acredito mesmo que eles estejam, a esta altura do campeonato, compondo porque precisam manter a máquina girando. Eles poderiam apenas anunciar mais uma turnê mundial de estádios, tocar em qualquer canto do planeta e pronto, recolher-se às suas casas até a próxima leva de shows. Se eles estão nos entregando material inédito, é porque eles querem, gostam e, principalmente, não têm mais a pretensão de soar geniais.
“Foreign Tongues”, então, se transforma em uma coleção bem digna de canções. Um repertório que passeia não só pelo “it’s only rock ‘n’ roll, but I like it” que os tornou gigantes, mas que também tangencia o R&B, pisa no jazz, flerta com a disco e abraça tantas outras ótimas influências que fizeram e fazem parte daquilo que se convencionou chamar de rock.
As letras não são lá muito inspiradas, mas quem está ligando para isso ao ouvir a poderosa faixa de abertura, “Rough and Twisted” (de longe a melhor do trabalho), ou a power ballad “Jealous Lover”, com Jagger soltando a voz em falsete enquanto a banda manda ver no suingue? A versão para “You Know I'm No Good”, de Amy Winehouse? Torci o nariz em um primeiro momento, mas no segundo consegui entender que ela é respeitosa e encaixada na proposta do disco. “Foreign Tongues” ainda traz participações de luxo: Paul McCartney no baixo em uma faixa e Robert Smith na guitarra em outra. Mas quer saber? Se ninguém te avisar, você nem vai notar. Mesmo sabendo, eu não consegui identificar.
E tudo bem. Porque quem precisa brilhar aqui é a maior banda de rock and roll de todos os tempos. E, cá entre nós: só o fato de eu poder escrever “um disco novo dos Rolling Stones” em pleno 2026 já é um acontecimento que precisa ser muito comemorado.
Ouça:
E mais…..
PARA TUDO porque o Alabama Shakes está de volta com esse belo single:
Mais Mastodon, com single novo que tem participação de Josh Homme. E vem disco novo aí:
Vamos ouvir a nova das Linda Lindas com participação de Hayley Williams?
Eu tenho certeza que você não sabia que Anthony Hopkins era um compositor clássico? Talvez nem ele soubesse, já que “Life Is a Dream”, que ele lança em agosto, reúne 12 gravações de obras orquestrais compostas por Hopkins ao longo de mais de seis décadas, muitas inspiradas pela família, pelo País de Gales e por suas experiências pessoais. O álbum é regido por Gustavo Dudamel, à frente da Philharmonia Orchestra, com participações do violoncelista Gregorio Nieto e do pianista Sergio Tiempo. O primeiro single é “1947: Suite for Solo Piano and Orchestra: II. Bracken Road”:
Aqui tem uma nova do Anthrax:
Tem mais Josh Homme na área. Desta vez em uma parceria nivel “rolê aleatório” com ninguém menos que Shania Twain:
Tá achando pouco Josh Homme? Então toma a nova do Queens of the Stone Age:
Uma canção meio shoegaze de beabadoobee:
Você não está lendo errado. É o Napalm Death no Tiny Desk Concert:
Outro Tiny Desk maravilhoso esta semana foi o de Flea, que se apresentou com a Honora Band:
Fiona Apple saiu da toca e lançou este single para a trilha sonora da série “Lucky”:
Aqui tem “In The Night”, primeiro single do novo disco de Beck, que sai em setembro. É seu primeiro disco de ineditas em 12 anos:
Novo single que precede um novo disco - o primeiro de inéditas em 12 anos - do Echo & the Bunnymen:
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Muito bom o texto sobre fandoms. Também gostei da organização da newsletter.
Maravilhoso texto sobre os fandoms. Uma ótima reflexão e muito bem escrita ❤❤