MALA #283
IMAGEM DA SEMANA
Elton John chegou assim na comemoração de seus 50 anos, em Londres, em abril de 1997. Para muitos, uma festa à fantasia. Para Sir Elton, apenas mais um dia.
QUANDO A TV FICOU MAIS CORAJOSA QUE O CINEMA?
Curiosos os caminhos por onde passa uma ideia até chegar no seu destino final.
Ao longo desta semana, usando as propriedades das quais faço parte, tanto as proprietárias quando as outras, para onde escrevo/falo, fui desenvolvendo um pensamento, que ainda não está finalizado (e nem acho que vá estar) sobre o Emmy, o universo das séries, a relevância do conteúdo audiovisual que é despejado nas plataformas, e algumas versões dele foram sendo publicadas.
Primeiro eu coloquei um episódio do podcast “Meninos Eu Vi” no ar falando da série “O Segredo de Widow's Bay” e algumas interseções com o Emmy 2026. Este episódio você vê/ouve ali embaixo.
Depois disso, avancei um pouco com este pensamento ontem na minha coluna da 98FM, que faço todas as quintas dentro do “Buenos Dias”. Clique aqui embaixo para ver:
Mas não fiquei satisfeito e desenvolvi ainda mais este pensamento. E é isto que quero trazer pra vocês aqui. Logo depois dos nossos comerciais! (brinks)
Vamos lá:
Semana passada saiu a lista de indicados ao Emmy 2026, e eu não consegui parar de pensar nessa “O Segredo de Widow’s Bay”. Série nova, estreante, da Apple TV, e que fez o seguinte estrago: 19 indicações. Pra vocês terem noção, é a maior marca de qualquer série estreante nesse ano, só perdendo em sua categoria para “Hacks”, que está em sua última temporada e bateu recorde histórico de indicações pra uma comédia.
E o que é esta série? Um terror-comédia. Dois gêneros que normalmente brigam entre si, sobre um prefeito (vivido pelo sensacional Matthew Rhys) tentando transformar uma cidadezinha de ilha amaldiçoada e meio sinistra na próxima Martha’s Vineyard. Falo mais detalhadamente sobre ela no podcast aí embaixo. Mas é basicamente como se o prefeito de "Tubarão” resolvesse fazer marketing turístico. Convenhamos, se um pitch desses fosse levado pra qualquer estúdio de cinema, ia ouvir um “interessante, mas não sei se o público vai entender o tom” e ia morrer na gaveta.
E é exatamente aí que eu quero chegar. Porque essa história me fez pensar numa coisa que venho reparando faz tempo: hoje em dia, quem está arriscando de verdade não é mais o cinema. É a tv/streaming.
Um estúdio grande lança, sei lá, seis, oito filmes por ano. Cada aposta errada dói muito. O orçamento é gigante, a janela de estreia é curta, o fracasso é público e imediato. Então o que acontece? Os riscos ficam calculados, quando não somem de vez. Sequência, spin-off, remake, fórmula testada. Tudo aquilo que eu ando de saco cheio, como vocês tem reparado, se é que vocês me acompanham com afinco. A real é que cinema de estúdio hoje é, na maioria das vezes, gerenciamento de risco disfarçado de arte.
Já a produção de séries vive outra lógica. Tem temporada, tem episódio, tem tempo pra respirar e pra construir audiência aos poucos. Dependendo, é claro, da paciência dos CEOs das companhias, mas via de regra é o que acontece. E o público pode descobrir no boca a boca, no streaming, sem depender só do fim de semana de estreia. Isso abre espaço.
E não é só “Widow’s Bay”. “Pluribus”, criada por Vince Gilligan, o mesmo cara que nos deu “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, e também indicada ao Emmy, é outro grande exemplo. Depois de duas obras-primas, ele podia ter feito o óbvio. Fez o quê? Uma ficção científica sobre um vírus alienígena que transforma a humanidade inteira numa espécie de mente coletiva feliz, enquanto a protagonista é uma das poucas pessoas imunes. Ritmo lento, proposital. Muita gente reclamou que a série demora pra engrenar, e mesmo assim, ela é uma das favoritas do Emmy esse ano. Um estúdio de cinema jamais bancaria um começo de filme “lento de propósito”, mas uma série, sim.
Outro exemplo: “The Pitt”, que foi numa espécie de caminho oposto, que eu vou chamar de “reinvenção de estrutura”. Uma temporada inteira, em tempo real, cobrindo um único plantão de quinze horas num pronto-socorro. Um experimento de linguagem que não afugentou ninguém. Foi a série mais indicada do ano, com 25 indicações.
Percebem o padrão? Risco de gênero, como “Widow’s Bay”, misturando terror e comédia sem pedir desculpa. Risco de ritmo, como “Pluribus,” que aposta na paciência do espectador. E risco de estrutura, como “The Pitt”, que reinventa a própria forma de contar a história.
Mas para não parecer que eu tô aqui enterrando o cinema, também existe risco por lá, só que ele migrou. Foi para o circuito de festivais, para o cinema independente, para a produção original de streaming também, porque, sejamos justos, streaming também erra a mão o tempo todo: cancela cedo, tem medo de temporada dois se a série não bombar de cara. Não é um mundo perfeito de liberdade criativa, mas, comparando um estúdio de cinema tradicional com uma série de prestígio hoje, o terreno pra experimentar parece ter mesmo mudado de endereço. Durante décadas o cinema foi visto como o espaço nobre da experimentação, e a televisão como entretenimento descartável. Hoje, cada vez mais, parece o contrário.
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DICA DE SÉRIE E ALGO MAIS
O Segredo de Widow's Bay
Criação: Katie Dippold
Elenco: Matthew Rhys, Kate O’Flynn, Dale Dickey, Stephen Root
Quando saíram as indicações para o Emmy 2026 muita gente ficou surpresa com as 19 de “O Segredo de Widow's Bay”. Eu não porque a série já estava no meu radar. E aí eu resolvi assisti. O resultado está no video abaixo, que eu aproveito também para falar um pouco sobre o Emmy 2026. Será que nesta, que é a maior premiação do universo das séries, ainda há espaço para surpresas e inovações?
ONDE ASSISTIR À SÉRIE: Na Apple TV
O podcast “Meninos, Eu Vi” está disponível no Apple Podcasts, Amazon Music, Deezer, Castbox e Youtube, além do Spotify. Clique aqui para obter os outros links.
A SEMANA DA CULTURA POP
PAREM AS MÁQUINAS! Saiu o trailer de “Vingadores: Doutor Destino” depois de trocentas versões fake. Estréia em dezembro:
E esse teaser de “Buddy”, que estréia em agosto?
Aqui o trailer final de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, que estréia na semana que vem:
Aqui tem “Misty Green”, dirigido por Chris Rock, com Rosalind Eleazar, Adam Driver e Anna Kendrick. Estréia em outubro:
E temos também um novo trailer do “Cara de Barro”, da DC, que estréia em outubro:
Surpreendendo um total de zero pessoas, os primeiros dias de “A Odisséia” nos cinemas bateu récordes. Inclusive o de melhor estréia de filmes de Christopher Nolan.
E que tal um ranking das performances de “A Odisséia”?
O que vem pela frente na carreira de Nolan? Poderia seu próximo filme ser um terror?
Ah, e o nosso malvado favorito Elon Musk agora disse que o Grok, sua IA ligada ao X, vai fazer uma versão da Odisséia “historicamente correta”. Resta saber em qual história ele vai se basear….
Aqui uma grande matéria no LA Times sobre Samantha Morton que, para muita gente, rouba a cena em “A Odisséia”, nos pouco mais de 10 minutos em que fica em cena.
E enquanto a gente se prepara para mais uma chegada de mais um sucesso (será?) da Marvel, que tal Kevin Feige ponderando sobre um retumbante fracasso da companhia? Tão grande que nem chegou a ser feito.
Falando nisso, acontece neste fim de semana a San Diego Comic Con e aqui tem uma prévia dos principais painéis e do que pode ser anunciado, incluindo aí o da Marvel, que chega cercado de muita expectativa.
Lá vamos nós: todos os filmes e séries que você precisa assistir antes de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, que estréia na semana que vem.
O pôster de “La La Land” foi atualizado para o relançamento de 10º aniversário, corrigindo a famosa “La La Hand” de Ryan Gosling, a pedido do próprio ator.
“Dias de Trovão 2”: vai rolar.
Selton Mello e Maria Fernanda Cândido serão homenageados no Festival de Gramado deste ano.
“Vicentina Pede Desculpas”, novo filme de Gabriel Martins (“Marte Um”), uma parceria entre a Filmes de Plástico e a Netflix, vai ter sua estréia mundial no Festival de Toronto deste ano.
Saiu o lineup completo do 83º Festival de Veneza, com várias estrelas, mas com pouca presença de grandes estúdios de Hollywood. Entre os filmes mais aguardados estão “Wild Horse Nine” de Martin McDonagh, “Bunker” de Florian Zeller, “Ink” de Danny Boyle e “Primetime”, produzido e estrelado por Robert Pattinson, além de “Oasis: Don’t Look Back in Anger”, sobre a turnê de reunião da banda, e a presença de Liam e Noel Gallagher no Lido. A competição reúne 20 títulos de autores consagrados como McDonagh, Werner Herzog, Hirokazu Kore-eda, Lee Chang-dong, Nanni Moretti, Andrea Pallaoro e Nicolas Pariser.
Uma nova série reboot de “Robocop” está em produção no Prime Video.
Cinco categorias - incluindo Melhor Ator e Atriz Coadjuvante em Minissérie - vão ser retirados da transmissão principal do Emmy 2026.
Eu veria fácil um documentário sobre a vida e carreira de Lily Allen. Pois meus desejos foram atendidos.
Um ranking: as 15 melhores canções dos Strokes.
Parece que rolou uma “treta” entre Madonna e Justin Bieber nos bastidores do show do intervalo da final da Copa, no último domingo. Mas na verdade é uma quase-treta. Ah, sim, a fonte original da notícia é o Daily Mail, então acredite se quiser.
E o Rush pode fazer uma residência na Sphere de Las Vegas no ano que vem.
A Lego lançou um novo set oficial de “Arquivo X” com 1.478 peças, que recria o escritório de Fox Mulder, uma cena na floresta com OVNI e traz oito mini-personagens, incluindo Mulder e Scully. Aceito de presente.
OBITUÁRIO:
Kaylee Hottle, 18, atriz de “Godzilla vs. Kong".
Luiz Carlos Barreto, 98, um dos maiores produtores da história do cinema brasileiro.
MERCADO, ETC
Um juiz federal suspendeu temporariamente a fusão entre Paramount e Warner Bros. Discovery, enquanto analisa uma ação antitruste movida por uma coalizão de 12 estados. A ordem vale por 14 dias, e uma audiência sobre uma possível liminar está marcada para 3 de agosto.
Passaralho na Disney, em especial na Pixar.
A Primordial Soup, empresa focada em projetos com IA de Darren Aronofsky, está levantando US$ 15 milhões em troca de participação acionária e já vendeu pouco mais de US$ 11 milhões em equity neste mês.
ESTRÉIAS DA SEMANA EM STREAMING E CINEMA
STUART NÃO CONSEGUE SALVAR O UNIVERSO - estreou esta semana no HBO Max:
KING OF THE HILL - 15a temporada - estreou esta semana no Disney+:
POMPÉIA: ALÉM DO TEMPO COM TOM HIDDLESTON - estreou esta semana no Disney+:
ELIZE: SOMBRAS DE UMA MULHER - Estreou esta semana na Netflix:
THE DINK - A ÚLTIMA CHANCE - Estreou esta semana na Apple TV:
E mais…
HAMNET - Chega hoje ao Prime Video
1941: UMA GUERRA MUITO LOUCA - Chegou esta semana à Netflix
E nos cinemas….
SIA: NOSTALGIC FOR THE PRESENT
BACKROOMS: UM NÃO-LUGAR - VERSÃO ESTENDIDA
DICAS MUSICAIS
Em 2024, Jack White lançou um disco chamado “No Name” completamente do nada, sem avisar. Simplesmente despejou nas plataformas e nas lojas. Agora, em 2026, ele repete a ideia com este “Frozen Charlotte”. E não é à toa.
Dá tranquilamente pra dizer que este disco é uma continuação direta do anterior, só que com o parafuso ainda mais apertado. Depois de anos alternando entre fases mais acústicas e surtos um tanto quanto freaks, com reações bem divididas, Jack White, nestes dois últimos trabalhos, tem sido bem mais White Stripes. Talvez eles sejam seus trabalhos que mais se aproximam da sonoridade de sua ex-banda. Mas agora, até mesmo por contar com uma banda completa (Patrick Keeler na bateria, Dominic Davis no baixo e Bobby Emmett nos teclados), ele soa mais robusto e musculoso.
E Jack White parece não ter medo de nada. Nas letras ele vocifera contra tudo e contra todos que ele acha de bom tom vociferar contra. Expõe as hipocrisias dos nossos tempos, dá nome aos bois e se posiciona como um dos nomes mais quentes do rock. Não que ele já não seja isso há algum tempo, mas parecia que ele havia perdido ou estava caminhando para perder essa condição.
Quer alguns exemplos práticos? Em “Derecho Demonico”, por exemplo, ele assume um tom de “não me venha com sermão”, quase um manifesto de “faço o que quero e não devo satisfação a ninguém”, cantado com uma agressividade quase marcial; em “Nobody Knows”, ele mistura confusão pessoal com referências históricas/científicas meio aleatórias, citando nomes como Newton, Einstein e Pitágoras; em “All Alone Again”, ele usa uma metáfora de resolução radical de problemas (do tipo “queime tudo para achar o que precisa”) que soa como sátira de discurso extremista; e em “Neighbor Blues”, faixa que encerra o disco, o tema é a paranoia da era da vigilância.
Não deixa de ser curioso que, em um mesmo dia, duas semanas atrás, tivemos lançamentos de novos discos dos Rolling Stones (que eu comentei aqui neste espaço na semana passada) e deste, de Jack White. Dois ótimos discos, cada um à sua maneira, que se transformaram em um prato cheio para aqueles que insistem em dizer que o rock está morto. Não existe a morte de um gênero. Existe apenas sua acomodação e sintonia com os novos tempos. Jack White e os Stones parecem entender isso e navegam sem amarras nestas águas um tanto quanto agitadas, buscando uma calmaria.
Ouça:
E mais…..
Novo single do grande Mike D:
Vamos com uma música do primeiro show do Tomahawk em 15 anos?
Já imaginou o Pavement fazendo cover de “Stairway to Heaven? Pois então clica aí:
Um novo clipe do Boy Harsher:
Aqui tem o novo single de Charlie XCX, em que ela pondera se muda de vez para o cinema ou não:
Conhece o Sylvan Esso? Trata-se de um duo eletropop americano formado por Amelia Meath e Nick Sanborn. Misturam indie folk com eletrônico e estão lançando este novo single, que precede seu novo álbum, “Ow ∞”:
Melissa Auf Der Maur lançou um novo single. Aliás, te convido a ler a ótima entrevista que o chapa Bruno Lisboa fez com ela na ocasião do lançamento de sua biografia.
Aqui tem o primeiro single do Dragonflies, projeto de Nigel Godrich e Dhani Harrison:
O projeto-tributo a Chris Cornell chamado King Ultramega chega com uma versão de “Birth Ritual”, do Soundgarden. No lineup, Matt Cameron, na bateria, Lzzy Hale (Halestorm) nos vocais, Joe Hottinger na guitarra e Mike Menghi, no baixo:
Bora com uma novíssima do Teenage Fanclub? E vem novo disco por aí…
Aqui o trailer do novo filme do Pulp, “What Do You Do For An Encore?”. O filme tem narração de Jarvis Cocker e pretende contar a jornada da banda “da obscuridade a toque de referência cultural”, misturando show recente de arena com imagens de arquivo inéditas cobrindo quatro décadas. Estréia nos cinemas em setembro e depois vai para a plataforma MUBI:
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